O Regime de uma nova Republica no Brasil depois de um longo período de Colonia
Imprensa no Século 19, durante o Republicanismo no Brasil como funcionavam como os jornais trabalhavam em torno da politica nacional
Uma Carta ao Leitor
Pretende-se
esboçar um pouco da cultura política republicana construída pelos principais
atores políticos do período, tendo como foco a relação que propunham entre
Estado e sociedade civil. Procuraremos analisar os diferentes projetos de
República propostos pelas principais lideranças que compunham a propaganda
republicana, tendo como foco a expansão da autoridade pública – aumento do
aparato institucional do Estado – e da cidadania – a proposição de canais de
inter-relação entre autoridade e sociedade civil – no contexto da modernização
brasileira. Faremos isso por meio da análise da imprensa republicana. A partir
da Bill of Rights – promulgada pelo parlamento britânico em 1689 e mais tarde
retomada pelos Estados Unidos em sua Independência, e pela França no contexto
da Revolução –, caberia ao Estado ser o responsável pela correção das
desigualdades naturais entre os homens, garantindo, por meio das leis,
princípios que assegurariam aos cidadãos os seus direitos. Influência pelas
experiências francesa e estadunidense que resultaram em dois modelos distintos
de República, os republicanos brasileiros tiveram de fazer algumas escolhas.
Além da preocupação dos mais proeminentes atores políticos na ocasião com a
melhor forma de viabilizar institucionalmente o novo regime, a partir da
observação das experiências históricas que lhes serviam de referência, pelo
menos dois projetos teóricos podiam ser, a princípio, visualizados como
pertinentes: o da tradição republicana que remontava a Maquiavel, cuja ênfase
se encontra no poder da comunidade, ou seja, a coletividade é vista como
portadora da virtude cívica, e o da tradição liberal, que ressaltava os
direitos individuais e via no resguardo destes o caminho responsável pela
inclusão do povo no projeto de nação que então se esboçava Comunidade e
democracia: a experiência da Itália Moderna. Federalismo e cidadania na
imprensa republicana (1870-1889) Com base em Richard Morse, pode-se garantir
que as tradições brasileiras apontavam para a ênfase na integração, herdeiras
que eram do tomismo ibérico. Mas não se pode desconsiderar o peso que a
experiência dos Estados Unidos exerceu sobre as tradições nacionais e o impacto
que a cultura liberal anglo-saxã sempre teve sobre elas. Diante desse leque de
oportunidades, o que se torna perceptível de imediato é a predisposição dos
republicanos para que as mudanças ocorressem exclusivamente no âmbito da
política, privilegiando os debates e as decisões no Parlamento. Ao mesmo tempo,
ao se levar em conta as discussões travadas ao longo da propaganda republicana
no Brasil, identifica-se a presença de duas correntes teóricas que serviam de
horizonte para seus principais atores: a francesa e a norte americana. O modelo
francês seria portador de duas vertentes: uma República em tom mais
conservador, a positivista, e uma em tom mais radical, a jacobina.11 Segundos a
historiografia a já produzida sobre esse assunto, os mais proeminentes
intelectuais brasileiros se Filiariam a um desses modelos. Releva-se aqui o
impacto exercido sobre o Brasil pela experiência dos Estados Unidos, sobretudo
no que tange à proposta de adaptação do modelo francês a territórios de grandes
dimensões, o que se deu por meio do federalismo. No entanto, segundo as
análises disponíveis, nenhum dos modelos propostos teria saído vitorioso.
Construiu-se, assim, uma República que não chegava a ser uma ditadura militar
(modelo positivista), não incluía o povo (modelo jacobino) e implantara um
federalismo desigual (modelo norte-americano). A República no Brasil foi
estudada a partir de suas distorções em relação a seus marcos fundadores
originais. O presente trabalho se propõe enfocar esse tema de forma
diferenciada. A partir do pressuposto, anteriormente anunciado, de que o
processo de modernização brasileira foi construído com base na permanência do
paternalismo – o qual foi paulatinamente influenciado pela emergência de
ideários europeus e Dossiê estadunidenses, que anunciavam a necessidade de
ruptura com tal modelo –, o presente texto se dispõe a analisar as propostas
dos republicanos não como desvios ou distorções em relação aos marcos originais
externos. Ou seja, pretende-se entender a lógica das proposições dos mais
proeminentes atores a partir de suas próprias referências históricas.
Tanto
no campo das culturas políticas por eles compartilhadas como no dos
acontecimentos históricos vivenciados por aquela geração no período. No que
tange às culturas políticas, já existem significa cativas contribuições historiografia
que as vinculam à chamada geração de 1870. O positivismo, o liberalismo
doutrinário e o evolucionismo eram as mais conhecidas e dominantes culturas
compartilhadas pelos pensadores brasileiros no período. Segundo abordagens de
Astor Diehl, nos meios acadêmicos proliferava o viés cientista, com a
divulgação das teorias de Darwin, Taine, Comte, Renan, entre outros. Essa
geração inspirava-se em três correntes distintas: o ecletismo, o positivismo e
o evolucionismo. Mas tais pensadores teriam confundido [...] a originalidade da
história do Brasil com as novidades teórico-metodológicas europeias. Essas
formas não receberam um tratamento crítico; foram adaptadas nem sempre para a
interpretação da realidade histórica, mas para criar uma história legitimadora
de posições políticas, de grupos sociais ou do próprio Estado.12 A própria
Monarquia brasileira, tentando diferenciar-se das demais Repúblicas latinas,
incentivava uma aproximação com os modelos europeus de cientificidade,
civilidade e intelectualidade. Em seu estudo sobre a questão racial no período,
Schwarcz igualmente critica essa pressuposta científica cidade, porque, segundo
a autora, os principais teóricos da nação tinham acesso apenas a manuais e
obras difusas provindos da Europa, compilações que nem sempre mantinham a
integridade dos originais. Não obstante, sentiam-se sábios, e nesse sentimento
tinham o apoio do imperador, o qual via a si próprio como um cientista.13
Segundos a autora citada, o panorama intelectual brasileiro no final do século
XIX havia se tornado mais diversifica em relação ao passado, na medida em. O
espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil,
1870-1930. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. Federalismo e cidadania na
imprensa republicana (1870-1889) que a Escola de Direito de São Paulo assumira
uma vertente mais liberal e a Escola de Recife estivera mais próxima ao
darwinismo social. Ambas as instituições haviam sido criadas em 1828, mas,
cerca de 40 anos depois, se diferenciaram em termos teóricos. A de Recife, que
tinha em Tobias Barreto seu teórico de maior expressão, era mais voltada para o
estudo dos filósofos alemães e dos darwinistas sociais, e a de São Paulo
voltava-se menos para as discussões filosóficas e atuava mais como formadora de
quadros políticos para o País. Além desses trabalhos mais focados no pensamento
político e cultural da geração de 1870, há igualmente uma gama de estudos sobre
como se processou o movimento político da propaganda republicana, do qual
faziam parte muitos desses intelectuais formados nesse ambiente. Durante muitos
anos, os estudos sobre a propaganda republicana no Brasil, além de pouco
numerosos, eram regionalizados. Destacam-se trabalhos sobre o movimento
republicano paulista, fluminense e rio-grandense. Muito embora o regime
monárquico fosse centralizado, os historiadores que se voltaram para o estudo
da fase final do regime, com o objetivo de estudar a origem do federalismo,
tiveram uma tendência a abordar o tema sob uma perspectiva estadualizada,
provavelmente impactados pelo que se sucedeu após 1889. Esse panorama começou a
ser mudado recentemente, com a publicação de trabalhos que discutem o
pensamento republicano nacional a partir de novos fundamentos, como a busca da
vinculação do pensamento republicano às práticas e aos interesses políticos de
seus principais protagonistas e às referências culturais populares existentes
no período, as quais teriam fundamentado as teorias da geração de 1870. Como
são ainda poucos os trabalhos, estudar. Para o caso fluminense: FERREIRA,
Marieta de M. (Org.). A República na velha província: oligarquias e crise no
Estado do Rio de Janeiro (1889-1930). Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1989. Para o
rio-grandense: LOVE, Joseph. O regionalismo gaúcho. São Paulo. Ideias em
movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil-Império. Maria Ribeiro, republicano
sob uma perspectiva de âmbito nacional trata-se de um desafio ainda a ser
vencido, para o qual queremos contribuir. Dessa forma, o presente.
Artigo
se propõe a identificar, no material produzido pelos principais atores
políticos envolvidos na propaganda, quais culturas políticas eram por eles
compartilhadas. Inspirados pelos teóricos europeus e pelas experiências históricas
republicanas conhecidas, que escolhas fizeram a partir das diferentes
apropriações realizadas dos discursos disponíveis. Sabe-se que o movimento
republicano era composto de variados grupos sociais: jovens militares,
jornalistas, professores, médicos, cafeicultores e bacharéis que se dedicavam
profissionalmente à política. Cada grupo possuía um conjunto de interesses
diferenciados. Relacionar tais interesses a projetos distintos de República
propicia uma releitura do período, contribuindo para novas respostas a questões
que se encontram ainda em aberto. Assim, acredita-se na obtenção de resultados
originais, não só por romper com uma visão assaz regionalizada do movimento
republicano, como também por propor uma releitura do processo de construção das
culturas políticas inauguradas ou reinventadas a partir do movimento
republicano no Brasil. Pensamos que a melhor forma de captar as culturas
políticas compartilhadas pelos arquitetos da República brasileira é ter acesso
aos consensos por eles produzidos, os quais geralmente se encontram em seus
textos partidários ou em suas imprensas oficiais, ou seja, os jornais que funcionavam
como órgãos oficiais dos partidos republicanos. Para os fins deste texto, em
primeiro lugar, foi priorizada a análise do mais importante manifesto
republicano, considerado como marco fundador do movimento propagandista; em
segundo lugar, analisamos a imprensa republicana mineira, dando destaque a um
dos mais importantes jornais republicanos da província, O Movimento, órgão do
Partido Republicano Mineiro. Em ambos os conjuntos documentais estaremos
atentos à consecução dos objetivos previamente anunciados. A República no
manifesto de 1870. O manifesto republicano foi publicado pela primeira vez no
jornal A República, em 3 de dezembro de 1870, com o fim de fundar um partido
político republicano de âmbito nacional. De autoria desconhecida, foi assinado
por 58 apoiadores. O manifesto
republicano de 1870. A ideia republicana no Brasil através dos documentos. A
partir deste momento, as referências ao 145 Federalismo e cidadania na imprensa
republicana (1870-1889) É importante iniciar qualquer análise a partir de seus
signatários. Das 58 assinaturas, 48 traziam a profissão dos signatários.
Levando-se em consideração esse aspecto, temos o seguinte quadro: Profissão
Número Percentual Advogados 15 21,73 Médicos 9 13,04 Negociantes/Capitalistas e
Fazendeiros 9 13,04 Políticos 8 11,59 Jornalistas 8 11,59 Engenheiros 5 7,24
Servidores Públicos 3 4,34 Professores 2 2,89 Sem Informação 10 14,49 Como se
pode notar, a grande maioria dos assinantes do manifesto pertencia à elite
intelectual do Império, pois eles eram portadores dos raros títulos de nível
superior então existentes no País. O setor produtivo estava também
representado, muito embora em menor número que aqueles ligados ao setor de
serviços. O grande número de advogados se explica não só por ser a formação em
Direito uma das poucas oportunidades de construção de carreiras existentes no
País, como também por nossa elite ter sido reconhecidamente composta por
bacharéis, desde tempos imemoriais. Muito embora não houvesse uma carreira com
formação superior em Jornalismo, muitos que se assim diziam possuíam formação
em Direito ou eram autodidatas. Pertenciam, então, a uma minoria letrada,
formadora de opinião. Talvez seja por essa razão que o manifesto faça tanta
alusão à existência de uma opinião pública favorável às propostas de mudança.
Não há referência no texto a quem compunha essa opinião e a como ela se
manifestava. Trata-se de um ente abstrato, como se pela expressão se entendesse
a manifestação de um consenso nacional. Manifesto virão entre parênteses, limitando-nos
a indicar apenas. Percebe-se, dessa forma, uma estratégia escolhida pelos
autores do manifesto para se fazerem ouvidos: a de serem porta-vozes de uma
aspiração nacional, de uma vontade coletiva, de uma cultura política compartilhada
pela maioria da nação. No esforço de escapar do estigma de desordeiros.
Revolucionários,
utópicos ou outsiders, os signatários, militantes da causa republicana, iriam
buscar na História nacional a legitimação de suas propostas, ao reforçarem seus
vínculos com a tradição, e não com a modernidade. Em síntese, arvoravam-se à
condição de portadores de uma legitimidade, porque podiam expressar uma opinião
pública que remontava ao passado da nação. Para esse fim, acabaram por fazer
uma leitura muito enviesada dos acontecimentos que lhes antecederam. Para eles,
a nação havia sido traída após a Independência em 1822. Apenas a forma havia
sido mudada, com a substituição de um governante pelo outro, mas a essência do
regime de dominação colonial fora mantida. Daí os republicanos verem a
implantação da República como a real manifestação de libertação do Brasil do
jugo português, e não os acontecimentos de 1822 Para os republicanos, no
momento da Independência, os interesses dinásticos precederam aos nacionais, e
os ideais democráticos do povo brasileiro haviam sido desdenhados. A abdicação
de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, foi lida como uma possibilidade de
resgate da soberania nacional então perdida. O período regencial que sucedeu à
abdicação era visto como a expressão fim dedigna dos interesses mais
democráticos da nação. Mas o fim do período regencial significou o fim dos
sonhos dos brasileiros de constituírem uma nação livre. Segundo os novos
intérpretes da História nacional, nossas instituições não eram sufi cientemente
fortes para garantir o avanço da democracia. As mudanças legais realizadas
acabaram por restringir as liberdades individuais, e a soberania do povo foi
anulada. No texto, a nação é apresentada como estando em contínuo perigo,
cabendo aos republicanos a missão de salvá-la. O panorama, em rigor, revelava
decadência moral, perturbação econômica e desorganização administrativa.
Apontavam-se, assim, dois caminhos para o futuro: ou a regeneração total ou o
ocaso da liberdade. Esse fato era agravado pela ação do governante, que não
tratava seus súditos como iguais, mas os discriminava segundo sua raça, seu
grau intelectual e sua posição social 147 Federalismo e cidadania na imprensa
republicana (1870-1889) Ainda em seu esforço de legitimação, o texto manifesta
preocupação em conferir a seus autores credibilidade. Para isso, faz
referências a diversas lideranças do Império que, de uma forma ou de outra,
manifestavam suas críticas e insatisfações em relação ao regime em curso. Cita
inúmeros políticos não vinculados ao movimento, mas que estavam descontentes
com a Monarquia. Faz referências contínuas à imprensa não republicana e às suas
críticas aos problemas do regime, apontados por ele como cruciais. Tentava, a
partir dessa estratégia, não se constituir em voz no deserto, mas portador de
um projeto coletivamente aceito. A base do manifesto é a crítica ao regime
monárquico. E são tantas as críticas que ao final se tem a clara impressão de
que o documento é muito pouco propositivo. O alvo mais visível é o Poder
Moderador. O quarto poder é criticado pelos republicanos não pela sua adoção,
mas pelo controle por ele exercido sobre os demais poderes. Com ele não havia
representação nacional, liberdade individual e nem livre manifestação da
vontade dos cidadãos. Ou seja, ele tornava nula a democracia. A nação havia se
militarizado; o funcionalismo, se tornado dependente; e a soberania, ilusória.
Dessa forma, a crítica à concentração de poderes pelo monarca é repetida à
exaustão. O poder exercido é avaliado como onipotente, perpétuo, acima da lei e
da opinião. Muito embora a avaliação da conjuntura contenha referências ao
caráter absoluto do exercício do poder pelo imperador, o que aparece no texto
como maior alvo de condenação é o falseamento das instituições democráticas
pelo poder constituído. Dessa maneira, antes de ser absoluto, despótico ou
autoritário – adjetivos utilizados pelos signatários ao se referirem ao regime
monárquico –, o Império era falso, corrupto e viciado. O que se condena com
maior veemência eram os sofismas do exercício do poder, o falseamento das
instituições democráticas, a proliferação da corrupção, os favoritismos
pessoais, entre outras mazelas. Os republicanos se sentiam enganados e traídos
pelo imperador, ao invés de se sentirem vitimados pela sua violência.
Condição
que explicaria o epíteto “absolutista” por eles utilizado ao se referirem ao
governante ou ao regime. Dessa forma, as liberdades civis e políticas, previstas
pela Constituição de 1824, eram vistas pelos signatários do manifesto como sofismas,
na medida em que não funcionavam na prática. A liberdade econômica era falseada
por uma legislação restritiva; a liberdade de imprensa era contida pela censura
dos 148 Cláudia Maria Ribeiro funcionários do governo; a liberdade de
associação era submetida à autorização do imperador; a liberdade de ensino era
limitada pelo monopólio oficial das escolas; a liberdade individual era violada
pelas prisões preventivas, pela imposição de recrutamento militar e pelo
limitado funcionamento do instituto do habeas corpus. Essas seriam
manifestações claras do falseamento das instituições democráticas anunciadas
pela Carta de 1824 Diante do quadro anunciado, principalmente por ser a
Monarquia reconhecida como um governo de fins pacíficos, a estratégia de
mudança passava menos pela revolução e mais pela reforma. O que se pretendia –
e de fato é a única proposta concreta existente no manifesto – era a convocação
de uma assembleia constituinte para que fosse dada ao País uma nova carta
magna. Ou seja, o que se almejava era a realização de uma mudança institucional
de cunho reformista, que se daria a partir de três prerrogativas: o
convencimento pela palavra, a revolução moral e a implementação de mudanças nos
procedimentos legais. Um texto deve ser lido também pelas suas ausências. Ao
lê-las, percebemos um documento eivado de conservadorismo, que se manifesta
pela defesa de muitas continuidades, muito embora fosse propositor de algumas
mudanças. Tal conservadorismo manifesta-se pela omissão em relação a um dos
problemas mais sérios com os quais a nação se defrontava no período, qual seja,
o da questão servil. Para um movimento que dava os seus primeiros passos,
portador de uma cultura política emergente, mas minoritária, convinha agregar o
maior número de adeptos, abrindo mão, como estratégia de conquista desse
espaço, de tocar em questões controversas que poderiam afastar do movimento uma
parcela portadora de grande influência: a elite agrária. A abolição não era um
consenso. A República, muito menos. Relacioná-las poderia levar tudo a perder.
Daí justificar-se tão importante ausência. Outro tema que aparece pouco no
manifesto é o da laicização do Estado, reivindicada por um dinâmico setor do
movimento republicano, o dos positivistas. Só há uma referência aos privilégios
desfrutados por certo setor da Igreja, o que estaria causando prejuízos à
liberdade de consciência (p. 47). A proposição da liberdade religiosa ou da
separação entre Estado e Igreja, uma das bandeiras mais destacadas pelas bases
do movimento, permaneceria distante do manifesto. Novamente entendemos essa
omissão como uma estratégia cuidadosa dos republica- 149 Federalismo e cidadania
na imprensa republicana (1870-1889) republicanos em não afastar do movimento os
católicos e suas lideranças, importantes para a composição de uma opinião
pública dominante. Para além da convocação de uma nova assembleia constituinte
há, porém, uma segunda proposição bastante concreta no manifesto: a implantação
do federalismo à americana, mas que só aparece ao seu final. “No Brasil, antes
ainda da ideia democrática, encarregou-se a natureza de estabelecer o princípio
federativo” (p. 53). Com essa frase, os signatários do manifesto de 1870
alegavam que as condições geográficas do País apontavam para a conveniência da
descentralização dos poderes. A centralização de uma nação, tão diversifica
cada em sua geografia a, foi vista como um elemento afetada imposto à nossa
trajetória, já que desde os tempos coloniais a metrópole atuara por meio da
implantação de poderes locais descentralizados. Mas o federalismo proposto era
assaz limitado. Por federalismo se compreendia tão somente a autonomia
provincial. Sua ausência implicava despotismo. Por fim, o lema “Somos da
América e queremos ser americanos” associava a Monarquia à Europa e colocava o
regime como uma excentricidade no continente americano. A permanência da
Monarquia engendraria difíceis relações com nossos vizinhos, isolando o Brasil
das demais.
Nações
coirmãs. Do que agora foi visto, cabe pensar como era composta essa cultura
política republicana. De onde vinham os conceitos utilizados pelos
contemporâneos? No texto, encontramos uma única referência a um político ou
intelectual estrangeiro. Trata-se de León Gambetta advogado e político francês,
de fortes vinculações republicanas e de destacada participação na consolidação
da III República Francesa. Sua reconhecida importância para a formulação de uma
constituição republicana, mesmo em meio a uma maioria comprometida com a
Monarquia, serviu de inspiração para os republicanos brasileiros, na medida em
que era essa a via por eles almejada para o Brasil. Acreditavam que com o convencimento
poderiam aprovar uma nova Constituição que mudaria a forma de governo. Daí o
investimento contínuo na propaganda. Além da referência à França republicana,
dois conceitos são muito recorrentes no texto: soberania e democracia, que de
certa forma se equivaliam. Para eles, democracia consistia na soberania popular,
e a soberania era definida como a “coleção das vontades de um povo”. Além
disso, para os signatários do manifesto, democracia não poderia coexistir com
Monarquia. De fato, os republicanos ou não conheciam ou omitiam a
possibilidade de existir uma Monarquia constitucional à inglesa, como se vê por
esta afirmação: “...o elemento monárquico não tem coexistência possível com o
elemento democrático”. O modelo constitucional almejado era do da III República
Francesa, e não o da Monarquia parlamentar inglesa, certamente mais próximo do
modelo brasileiro então em vigor. A incompatibilidade entre Monarquia e
democracia derivava do caráter hereditário da primeira, o qual se contrapunha à
elegibilidade dos governantes, princípio inarredável da segunda: “...aceitar o
sistema misto como um sistema racional e exequível é ultrapassar as raias do
absurdo, porque é fazer preponderar o poder humano sobre o poder divino”. Para
eles, a Monarquia estaria necessariamente fundamentada no poder divino dos
reis, por ser hereditária. Já na democracia, o poder fundamentava-se no povo.
Pode-se, então, concluir, com base no texto do manifesto, que, para os seus
autores, o oposto da Monarquia era a democracia, e não a República. Daí se
explica, talvez, o fato de não ser encontrada com frequência a palavra
“República” no manifesto. Embora ele se intitule como “manifesto republicano” e
tenha sido publicado em um jornal recém-criado que fazia alusão ao termo, a
ideia republicana se faz ausente no texto. À exceção do título, o regime
proposto só aparece ao final do manifesto, em sua conclusão. Por outro lado, a
palavra “democracia” é muito frequente, o que nos induz a pensar que os autores
do manifesto a vissem como sinônimo de República, ou que o regime republicano
fosse o único capaz de garantir a democracia. Starling e Lynch, como parte
integrante do projeto conceptos no Atlântico, foram buscar a origem dos termos
“república e republicanismo” para os brasileiros no período anterior ao
movimento republicano, qual seja, entre 1750 e 1850.Os autores identificam
quatro fases distintas pelas quais os conceitos passaram. Na primeira fase,
entre 1750 e 1792, o conceito de República esteve associado às abordagens
clássicas romanas de Políbio e Cícero, ou seja, o de comunidade voltada para o
bem comum ou de governo gerido por setores originários das camadas populares.
Na segunda fase, que vai até a Revolta de 1817 em Pernambuco, a República,
inspirada na Revolução Francesa, seria vista como a garantia de um governo de iguais. A terceira fase do conceito
estaria compreendida entre 1821 e 1834. Nesta fase, a República estaria
associada à Revolução Constitucionalista do Porto e seria sinônimo de
democracia ou de governo eletivo. Nesse período, República se associaria à
experiência federalista norte-americana, mas os republicanos ainda estariam
tímidos, escondendo-se sob a aceitação de uma Monarquia constitucional democrática.
Na quarta fase, iniciada com a reforma constitucional de 1834, a República
começou a ser vista como sinônimo de separatismo e, consequentemente de
desordem. Os autores não avançam para a fase.
Seguinte,
ou seja, aquela em que a República retomava seus adeptos, passando a
considerá-la como a salvação para todos os problemas da nação. Pela análise que
fizemos de seu manifesto fundador, o termo República, após 1870, retomou o
significado da terceira fase, ou seja, esteve associado à democracia e ao
federalismo. No entanto, como a conjuntura havia mudado, os republicanos
puderam expressar menos timidamente o seu projeto de alteração do regime. O
manifesto foi publicado na capital do Império e teve forte repercussão nas
demais regiões do País. O Rio de Janeiro tornou-se o palco principal do
movimento republicano. Analisar o impacto do movimento em uma região menos
central e mais periférica ao movimento propicia avaliar o real impacto dessa
cultura política emergente sobre o conjunto do País. Procederemos agora à
análise de parte da imprensa republicana de Minas Gerais. A República na
imprensa mineira Pretendemos agora fazer uma reflexão sobre os valores
políticos defendidos pelos republicanos mineiros em seu mais importante veículo
de comunicação no período, o jornal O Movimento, além de nos utilizarmos de
outros jornais publicados na província, mas de forma menos central. Muito
embora houvesse outros jornais republicanos circulando em Minas Gerais, O
Movimento era o órgão oficial do Partido Republicano Mineiro e era impresso na
capital da província, além de circular por vários rincões do interior. O
veículo foi fundado às vésperas da instituição da República, tal como o partido
político de cujas ideias era a expressão. Entre os jornais conhecidos era o que
possuía a maior tiragem: cinco mil cópias. Funcionava bem como um instrumento
de agregação dos republicanos mineiros e expressava o conjunto de uma cultura
política republicana compartilhada entre os propagandistas brasileiros, na
medida em que recebia a contribuição de articulistas de todo o País, envolvidos
com a propaganda do novo regime. Minas Gerais, a partir de 1850, tornara-se uma
província majoritariamente cafeicultora. A maior parte de sua receita fiscal no
período derivava do café, e tal realidade assim permaneceria até meados do
século XX. Era também a província que reunia o maior número de escravos do
Brasil, concentrados não só na atividade cafeicultora como também em uma
dinâmica economia de mercado interno, responsável por abastecer de alimentos
inúmeras outras províncias do Império. Centro político de incontestável
importância, a província fornecia quadros políticos destacados para o regime
monárquico. Em que pese esse fato, agregou em seu seio um movimento republicano
relativamente forte e coeso, manifesto com a publicação de 24 jornais e a
existência de 51 clubes republicanos e de 60 partidos políticos, sediados nos
113 municípios existentes em 1889. A historiografia a brasileira sobre o
advento da República teve de necessariamente relacionar a Proclamação da
República à abolição da escravatura, dado que ambos os fenômenos foram
contemporâneos. A despeito de terem sido processos distintos, muitos de seus
militantes destacados compartilhavam as hostes de ambos os movimentos, em que
pese o fato de terem existido abolicionistas monarquistas e republicanos
escravistas. Essa vinculação deu origem a uma das mais consolidadas teses
explicativas da crescente adesão à República em Minas, a de que o projeto teria
recebido forte sustentação política dos cafeicultores. Descontentes com a
abolição da escravatura, esses empreendedores teriam responsabilizado a
abolição pelo desmantelamento da estrutura produtiva do café. Segundas tais
análises, a ausência de uma política consistente de reposição da mão de obra
que abastecesse as promissoras fazendas teria conduzido centenas de fazendeiros
em direção ao projeto republicano.23 Esse teria sido o caso de Minas Gerais,
região produtora de café que recebeu imigrantes em número insuficiente para
repor os trabalhadores libertos após a abolição e cuja economia sofreu, de
fato, impacto negativo após a libertação dos escravos. 22 Esses dados foram
levantados em pesquisa realizada na imprensa republicana mineira Conforme boa
parte da historiografia a assevera, os descontentes teriam aderido prontamente
ao projeto republicano, ou por vingança, ou como uma forma de obter indenização.
Império,
com vistas à compensação das perdas provocadas pela abolição. O historiador
Francisco de Assis Barbosa chega a associar a defesa do federalismo à
estratégia de obtenção dessa indenização.24 Diferentemente do manifesto de
1870, a associação entre abolição e República era parte intrínseca do discurso
dos republicanos mineiros, como se percebe pela citação a seguir, retirada de
um pequeno jornal propagandista ao sul da província de Minas Gerais: A
democracia conquistou todos os espíritos, e à libertação dos negros seguiu-se
fatalmente a libertação dos brancos. As datas se aproximam. A independência do
Brasil não está ainda feita. Ipiranga é hoje uma mentira histórica. [...] A nação
exige a sua independência política pela república federativa como impôs a
libertação imediata dos escravizados. Essas duas redenções deveriam ter a mesma
data, se em nosso país a vontade da Nação tivesse mais força e não se
eclipsasse no choque de interesses pessoais... 25 Notam-se nessa citação
referências positivas à abolição. O fato de a notícia ter sido publicada uma
semana após a aprovação da Lei Áurea explica a mudança de posicionamento em
relação às omissões observadas no manifesto de 1870 anteriormente analisadas.
Quando o jornal mineiro foi publicado, o fim da escravidão já era fato. Não
havia perigo de o movimento republicano a ele relacionar-se. Nota-se,
igualmente na citação, a afirmação de um princípio anunciado antes pelo
manifesto: o de que a República inauguraria, de fato, a independência do
Brasil, e não 1822. Mas a abolição não seria vista sem críticas. Não raro
apareciam referências no jornal O Movimento à crise vivenciada pela lavoura em
razão do impacto negativo que ela teria provocado sobre a economia regional.
Reclames surgiam em relação aos erros cometidos pelo imperador ao decretar o fim
do processo sem que medidas preparatórias tivessem sido implantadas antes de
sua deflagração. No âmbito dos jornais republicanos analisados, percebe-se a
manifestação do descontentamento dos fazendeiros de café em relação à falta de
braços, punibilidade de créditos compensatórios, à ausência de uma política
agressiva de atração de imigrantes, às altas tarifas alfandegárias cobradas do
setor produtivo nacional, entre outras queixas. Esse amplo espaço oferecido
pelos jornais republicanos aos fazendeiros descontentes constituía-se em
estratégia de atração desses setores para a causa republicana. Mas, como a
abolição já havia sido decretada, os republicanos mineiros passaram a ter outra
preocupação, qual seja, o destino dos milhares de ex-escravos. Para eles, o
imperador não se preocupara com as milhões de almas, consideradas pela elite
ilustrada do período como “bárbaras e embrutecidas”. Jornais divulgavam e
recomendavam que vários clubes republicanos se empenhassem na resolução desse
problema, a partir da disseminação da educação para os libertos. Caberia aos
clubes organizar aulas noturnas, ministradas por republicanos, com o fim de
alfabetizar e complementar a educação básica desses setores. Mas não só a
educação dos libertos era objeto de preocupação dos propagandistas. Um dos mais
destacados articulistas de um dos mais importantes jornais republicanos de
Minas Gerais – O Colombo –, Júlio Barni – autor de um manual destinado aos militantes
da nova forma de governo –, propunha uma nova educação política para todo o
povo brasileiro com vistas a prepará-lo para a recepção da República: Sem a
instrução que esclarece os cidadãos, acerca de seus direitos, deveres e
verdadeiros interesses, os votos são necessariamente cegos; e então o sufrágio
universal, em lugar de ser a expressão da vontade de um povo livre, torna-se um
instrumento do despotismo. Da mesma forma que o manifesto de 1870 apontava, o
discurso republicano mineiro foi caracterizado pela manifestação de
descontentamentos em relação à conjuntura monárquica vivida pelos seus
principais atores. Tanto o imperador como toda a família real eram
continuamente desqualificados pelos propagandistas. Não só eles eram alvo de
críticas. O Conselho de Estado era duramente açodado pelos republicanos. A
propaganda era construída com base em denúncias, que apontavam para o caos
vivido pelo País e para a inoperância dos dirigentes na solução dos problemas
mais prementes.
O Colombo, Campanha era
igualmente vista como uma excentricidade. “Pois uma instituição qualquer que
não se adapte à índole e às condições sociológicas de um povo é um corpo estranho
no organismo social que mais cedo ou mais tarde será por ele expelido. ”Tal
excentricidade distanciava o Brasil do conjunto de países que compunham as
Américas, restando ao País submeter-se às influências das antigas nações
europeias, vistas pelo jornal como antiquadas. Entre as antigas nações não se
enquadrava a França, que, ao lado dos Estados Unidos, constituía-se em modelo
de boa administração. Essa admiração pelos federalistas americanos e pelos
líderes mais proeminentes da Revolução Francesa manifestava-se por meio da
adoção de pseudônimos pelos articulistas mineiros, os quais remontavam aos
principais líderes de ambas as revoluções: a francesa e a estadunidense. Além
do que, várias reportagens sobre esses movimentos eram publicadas nos jornais
mineiros, todas com o fim de enaltecer os avanços por eles provocados. O grande
feito dos franceses era objeto de comemoração das publicações de 14 de julho,
data da Revolução. O exemplo a seguir explicita uma dessas comemorações: A
república brasileira saúda fraternalmente a sua irmã imorredoura, a patriótica
e lendária França. [...] os fatos que temos notado da nossa história política
nos demonstram cabalmente que a monarquia não se molda à índole brasileira,
porque ela é corruptora, enfraquece os sentimentos, dilapida caracteres e o
brasileiro patriótico como é aspira à independência, a altivez de espírito que
só no governo republicano pode ter, porque é responsável perante o povo.28
Relembrando o mito salvacionista aludido pelo historiador francês Raoul
Girardet,29 os republicanos anunciavam a República como uma panaceia capaz de
salvar a nação de todas as suas mazelas: A propaganda republicana vai fazendo
tranquila e triunfalmente sua marcha vitoriosa através desta mísera
nacionalidade que ela é chamada a galvanizar, rejuvenescendo-a. Por toda parte
penetra, e é por todos recebida como a suprema esperança e a única salvação
possível. A construção de um algoz requeria a perfilhação de suas vítimas. Os
jornais seriam pródigos na listagem delas. Os republicanos mineiros se diziam
perseguidos pela Guarda Nacional e pelas polícias locais e caluniados
injustamente. Para atraírem o interesse dos cafeicultores, empunhavam uma de
suas mais importantes bandeiras: a da redução de impostos, colocando-se lado a
lado daqueles que se sentiam extorquidos pela política fiscal do Império. Os
que pagam a festa, os que pagam a música, são justamente os que não dançam. A
classe por excelência produtora é a lavoura, e o governo só se lembra dela para
cobrança de impostos. [...] Entretanto, o que a lavoura tem deve ao sol e à
chuva. [...] Quais são os donos da terra? O povo ou os parasitas? [...] quais os
que devem corar? Nós ou vós? O discurso da vítimas completava-se com a associação
dos republicanos à condição de cativos, tal como os escravos, mas desta feita
cativos do imperador. A Monarquia aparecia comparada ao Antigo Regime francês,
cujo tom absolutista era dado pelos abusos cometidos pelo governante no uso do
Poder Moderador. O poeta Camilo de Campos expressava muito bem o sentimento ao
qual nos referimos: O Brasil suspira Ai que dor Sou cativo, bem cativo Do
imperador [...] Os brasileiros suspiram Ai que Dor Somos cativos Da filha do
imperador [...] Quando ficaremos Ai que dor Livres da família Do imperador! As
alusões de José Murilo de Carvalho33 ao resgate que o movimento republicano fez
ao herói Tiradentes encontraram em Minas Gerais campo fértil de florescimento.
Afinal, a província havia sido o principal palco de manifestação da luta pela
Independência. Dessa forma, os republicanos mineiros se sentiam mais herdeiros
dos inconfidentes do que os demais. A vítimas dos propagandistas republicanos
encontrou respaldo na perseguição sofrida pelos inconfidentes. Viam na luta
contra a Monarquia uma maneira de vingar a morte dos rebelados do século
anterior, resgatando a justiça. A República apareceria como um novo evento
fundador da nação. O poema a seguir explicita bem esse resgate. O poeta
apresenta-se como o próprio Tiradentes: [...] Cem anos fazem agora Em que eu
tentara a vitória De libertar-te oh! Nação! Fui preso, fui enforcado Pela
pátria esquartejado.
Vendido
por um irmão. Hoje do alto do Empyreo Olho o Brasil, me admiro, Vendo tudo
iluminado; Se assim for, povo querido, Por vós o trono abatido, Tereis o mártir
vingado. [...]Municípios recém-criados na província, que pouca ou nenhuma
contribuição tiveram para o movimento inconfidente, apropriavam-se dessa mesma
memória para justificar a sua adesão à República. O manifesto republicano da
cidade de Juiz de Fora, fundada somente em 1856, reproduzido em jornal da
capital, era um exemplo claro de invenção da tradição. Assim se expressou:
Porque a história diz que Minas soube sempre ocupar a vanguarda nos grandes
movimentos políticos de nossa pátria; porque o altivo e brioso povo mineiro,
assim como fez dobrar por finados, ao aproximares-lhe uma vez o fundador do
império, e apressou a queda do primeiro reinado, assim também é ele quem, hoje,
neste país se bate com mais denodo e com mais admirável estratégia pela
abolição do privilégio dinástico, pela reivindicação da soberania nacional,
pela fundação dos Estados Unidos brasileiros. Sim, precisamente por ser a
pátria de Felipe dos Santos, de Tiradentes e do venerando padre Camilo de
Britto, a primogênita da democracia americana, no Brasil, é que um ministério
de cortesãos tenta a todo transe convertê-la em sórdido balcão de sufrágios
eleitorais, em vil mercado Além do 14 de julho, os republicanos igualmente
comemoravam o 21 de abril, ano da morte de Tiradentes. Tal como as procissões
religiosas, essa data era comemorada com a recriação do martírio do líder, em
seus últimos dias antes de ser esquartejado. As pedras que calçavam as ladeiras
de Ouro Preto, então capital da província, conferiam ao quadro aspecto ainda
mais lúgubre, ampliando o sofrimento dos inconfidentes, após terem sido traídos
pelos que se opunham ao projeto de liberdade. Com essa reconstrução do passado,
os mineiros eram apresentados como se tivessem sido sempre republicanos e como
se todas as suas lutas tivessem se dado com o fim de resgatar a liberdade. Por
terem sido derrotados e vitimados outrora, os republicanos eram os novos
inconfidentes a clamarem por justiça no presente. Por meio das publicações
republicanas mineiras, percebemos a construção de uma nova representação para a
província. Minas é apresentado como palco de luta pela liberdade, mesmo que
para isso tenha de usar a estratégia revolucionária. O discurso de ordenamento
e pacificação, que sempre marcou as referências à província, era então
transmutado em prol de uma luta contínua pela liberdade. Essa nova construção
passava por uma reinterpretação de sua própria História, resgatando eventos
antes ocultados pela memória, a exemplo da participação dos mineiros na Guerra
dos Emboabas, em revoltas escravas e na Revolução Liberal de 1842. A luta dos
republicanos era então respaldada por uma tradição mineira inventada, a qual
realçava o conflito e a revolta como partes integrantes de sua trajetória. Um
dos mais importantes propagandistas republicanos em Minas Gerais foi Antônio
Olinto dos Santos Pires. Em texto escrito anos após o movimento, fez questão de
referenciar a participação mineira no conflito emboaba, no qual ressaltava o
espírito beligerante dos mineiros: [...] A terra parece que evapora tumultos e
a água exala motins; o ouro tosse desaforos; destilam liberdades os ares; vomitam
insolência as nuvens; influem desordens os astros; o clima é tumba da paz e
berço da rebelião; a natureza anda inquieta consigo e amotinada lá por dentro,
é como no inferno. Bramam graves trovões continuamente, de onde se precipita o
raio ardente. [...]Olinto usou um evento pregresso para justificar as razões da
desobediência republicana. Tratava-se de um motim, mas um motim plenamente
justificável, porque seu fim era a luta contra a tirania. Em prol da liberdade,
qualquer ação violenta estaria plenamente justificada. A partir do que foi
posto, percebe-se uma diferença crucial em relação ao texto do manifesto de
1870. O caráter reformista e conciliador havia sido transmutado em estratégia
de amotinação. Tal mudança se explica pelo período em que os textos foram
divulgados: o primeiro no início do movimento republicano, e o segundo ao final
deste. Ao longo desses quase 20 anos, a propaganda mostrava-se frágil na consecução
de seus objetivos. A via revolucionária passou, então, a ser apontada como um
caminho possível e justificável, embora a propaganda jamais
tenha sido abandonada. O ideário político do movimento era também reforçado
pelas festividades. Cada núcleo republicano existente na província organizava
conferências públicas conhecidas como “meetings”, para as quais era sempre
convidada alguma liderança de destaque nacional para proferir uma palestra em
prol da divulgação do ideal republicano. Tais ocasiões eram acompanhadas de
inúmeras manifestações artísticas, como a música e o teatro. Em geral, finada a
conferência, os manifestantes saíam às ruas aos gritos, para saldar a
República. Alguns cantavam o hino revolucionário francês, na língua original,
outros entoavam hinos previamente elaborados para enaltecer o novo regime. As
festas realizadas por ocasião da visita de Silva Jardim, um dos mais destacados
próceres da República, a Ouro Preto foi assim descrita por um jornal
republicano: Uma grande multidão acompanhava-o ao hotel enquanto na praça se
incorporavam os acadêmicos para realizarem a anunciada manifestação. Cerca de
500 moços com flambeaux e fogos desfilaram pela Rua Direita, em marcha cívica,
ao som da Marselhesa, por entre aclamações entusiastas e, depois de terem
percorrido as principais ruas de Ouro Preto, dirigiram-se ao Hotel Martinelli.
[...] Foram levantados vivas ao partido republicano organizado, ao congresso e
conselho federal, ao congresso provincial mineiro, ao Dr. Saldanha Marinho, a Quintino
Bocayuva, Campos Salles, Aristides Lobo, Ubaldino do Amaral e ao Dr. Jardim,
que foram freneticamente aplaudidos.O Movimento, Ouro Preto, ano I, n. 15, 30
abr. 1889 Percebe-se um esforço em conferir aos líderes republicanos uma
auréola de enaltecimento que os legitimaria como novos líderes da pátria.
Preparava-se, assim, o terreno para a emergência de uma nova cultura política,
a republicana. O golpe que daria fundação à nova forma de governo permitiria a
consolidação dessa nova cultura, que se tornou, paulatinamente, dominante no
País. Conclusões Ao longo deste artigo, procurou-se analisar de que forma os
republicanos foram aos poucos edificando uma nova cultura política, que se
configurava como uma alternativa às mazelas pelas quais se sentiam vitimados no
contexto monárquico. Optamos pela análise de duas modalidades diferentes de
documentos. A primeira trata-se do mais importante manifesto, carta fundadora
do movimento republicano, que, embora publicado na Corte, destinava-se a unificar
o discurso de um conjunto vasto de adeptos do novo regime. O manifesto tinha
caráter inaugural do movimento e expressava bem o patamar sobre o qual se edificariam,
mais tarde, os pilares de uma nova alternativa política. Daí seu caráter
ambíguo em relação às principais propostas que dividiam a Nação: a abolição e a
laicização do Estado. Tais propostas, que convidavam o País a se inserir na
modernidade liberal europeia, eram vistas ainda com desconfiança pelos atores
republicanos, que compartilhavam desses valores e ao mesmo tempo carregavam
dentro de si o peso das relações paternalistas que haviam fundamentado, durante
séculos, a cultura política monárquica brasileira. Daí que o silêncio em
relação a essas questões se explica não só pelo receio em não angariar apoio
sufi ciente para a nova causa, mas, sobretudo, por serem muitos republicanos
adeptos da escravidão e contrários a um Estado liberal inteiramente laico. O
silêncio sobre esses dois temas expressa bem o período de transição pelo qual
passava o País. Como nos lembrou Bendix, citado anteriormente, toda transição
para a modernidade implica a coexistência de valores ambíguos, alguns relativos
ao passado que se quer deixar e outros afetos ao futuro que se quer anunciar. A
segunda modalidade de documentos analisados inclui jornais de outra província,
do interior do Brasil, em um período posterior, ou seja, quase 20 anos após a
fundação do movimento. Muito embora Minas Gerais fosse uma unidade política de
grande importância para o Reino, o relativo distanciamento em relação à
mobilização antimonárquica que se processava na Corte fazia com que os 161
Federalismo e cidadania na imprensa republicana (1870-1889) republicanos
mineiros se posicionassem de forma um pouco diferenciada em relação ao quadro
encontrado para o Rio de Janeiro. Muito embora uma cultura política demande
muito tempo para ser efetivamente transformada, o que foi possível notar, a
partir da análise da imprensa mineira, foi a mudança de estratégia dos atores
para a consecução de seus objetivos.
Nota-se que a imprensa mineira não
discutiu a abolição, porque já era este um fato dado, mas preocupou-se com o
destino dos milhares de libertos, bem como com a situação econômica dos
fazendeiros, que daquela mão de obra dependiam. Em relação à laicização, não se
posicionou, até por ser a província muito católica. O que se destaca é a
mudança de estratégia e dos usos do passado para que o projeto republicano
fosse justificado. A estratégia reformista foi substituída por uma proposta
revolucionária, em tom mais agressivo. Mesmo que para a mudança desse tom
tivessem os mineiros de construir uma nova representação de sua História, que
passou a ser narrada a partir de uma sucessão de conflitos e lutas cruentas. Os
usos de imagens e símbolos do passado se deram a partir dos interesses
imediatos de uma luta que se aprofundava: a disputa entre dois projetos
distintos, entre duas culturas políticas em choque. O projeto republicano saiu
vencedor. Mas, até que a cultura política republicana se tornasse dominante,
muitos anos teriam ainda de se passar. Implantado o regime, a primeira
Constituição previu em um de seus artigos a realização de um plebiscito que
escolheria entre uma das formas de governo: a Monarquia ou a República. A
aprovação do artigo, que refletiu em fôlego final dos restauradores, ficou,
porém, esquecida ao longo de muitos anos. Enquanto isso, o imaginário
republicano era reforçado e consolidado por todo o País, em que pesem os
problemas que o novo regime não conseguiria resolver. Mais de cem anos depois,
o plebiscito previsto foi realizado. A derrota fragorosa dos monarquistas
apontou para a realidade nua e crua da História: os vencedores haviam sido bem sucedidos
em transformar uma cultura política emergente e minoritária em uma verdade
incontestável.








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